(Por Joana Pessanha, cujos pais ajudaram a fundar o PT)
Os meus dois irmãos mais velhos sempre olharam para mim com um misto de orgulho e ciúme. O segundo sentimento é óbvio, afinal, a caçulinha da família é sempre cercada de cuidados, nunca pode ir até a esquina comprar o pão porque é pequenininha e sempre é defendida no caso de uma muito provável briga de socos e pontapés com os filhos mais velhos. O orgulho até que às vezes era bem disfarçado, mas eu sempre percebi a felicidade deles a cada conquista minha: o boletim, o vestibular, o diploma universitário, o primeiro emprego, a mudança para um jornal grande, o apartamento alugado recentemente para morar sozinha...
E foi com essa mistura de sentimentos que eu acompanhei o meu irmão menor até vê-lo chegar agora ao topo. Em 1980, quando eu tinha quatro anos, meus pais tiveram um outro filho. Ele tomou muito do tempo dedicado a mim. Isso me incomodou no início. Ele exigia cuidados diferentes dos que foram dados a mim e a meus irmãos mais velhos. O novo caçula era festeiro. Em um mês, meu pai - que sempre foi um cozinheiro de mão cheia - fazia um angu à baiana e enchia a casa de amigos (que eram chamados de companheiros). No outro mês, um panelão de canja de galinha levava mais dezenas e dezenas de pessoas que eu nunca tinha visto para dentro da minha sala. Sem entender muito bem o que estava acontecendo, eu até que gostava das festas. E tudo era motivo de festa. Também havia reuniões seriíssimas que levava umas 20 pessoas até minha casa. O assunto era o meu irmãozinho e eu ficava espiando pela porta entreaberta do quarto, onde meus pais presumiam que eu estava dormindo. Mas por que tanto se discutia esse moleque? Não basta ter apenas pai e mãe? Não, o meu irmão menor tinha uma infinidade de parentes. Nem eu havia sido tão paparicada... Ai que ciúme!
Fui crescendo, o ciúme foi acabando e no lugar dele cresceu o orgulho. Ficava feliz de ver cada conquista do meu irmãozinho em várias partes do país. Sim, meu irmão fazia sucesso e virou uma febre no Brasil todo. Em 1989, com apenas 9 aninhos, o moleque abusado resolveu que seria presidente. Meu pai, minha mãe, aqueles tios e tias que iam às festas lá em casa em 1980 agora já tinham se multiplicado por milhões. A famíila era grande e o moleque teria um bom apoio. Infelizmente, a primeira tentativa foi frustrada. Em 1994 e 1998, mais duas derrotas. Mas ele continuou crescendo, aparecendo, aprendendo e, sobretudo, merecendo.
Chegou 2002. Meus pais estavam um tanto decepcionados com o filho caçula que, aos 22 anos, havia se afastado um pouco do ideal que o cercava em 1980. O moleque estava em companhias suspeitas e seu Joaquim e dona Geyse se preocupavam muito com isso. Mas filho não se abandona e o amor falou mais alto: os dois voltaram a carregar no colo o garotão. Voltaram a sonhar com a possibilidade de um mundo melhor e se deram conta de que nunca estiveram tão perto disso. Eles estampavam no peito e no rosto o orgulho de ter ajudado a criar aquela criatura que levava milhões e milhões de brasileiros a sonhar com tempos melhores.
Domingo, 27 de outubro, eu estava na Praia de Icaraí comemorando com meu pai. Finalmente, o partido que ele ajudou a fundar em Niterói há 22 anos chegava ao topo. Minha mãe estava na Cinelândia, empunhando sua bandeira vermelha com a estrela branca. Meu irmão ficou em casa cuidando da sua pequena Ana Luísa, que nascera há apenas 11 dias. Minha irmã mais velha hoje mora em Fortaleza mas, certamente, de alguma maneira, estava comemorando a façanha do caçula da família. Durante a festa na praia, parou um daqueles companheiros da antiga, que freqüentava o angú à baiana e a canja de galinha, e gritou no ouvido do meu pai: "Joaquim, nós conseguimos!". O meu pai, com o olhar distante, respondeu apenas: "Em pensar que todas as fichas de filiação do partido cabiam em uma única caixa de sapato. E nós guardávamos aquela caixa como se fosse o nosso maior tesouro..."
