segunda-feira, novembro 04, 2002

Enfim, a vitória, 22 anos depois
(Por Joana Pessanha, cujos pais ajudaram a fundar o PT)


Os meus dois irmãos mais velhos sempre olharam para mim com um misto de orgulho e ciúme. O segundo sentimento é óbvio, afinal, a caçulinha da família é sempre cercada de cuidados, nunca pode ir até a esquina comprar o pão porque é pequenininha e sempre é defendida no caso de uma muito provável briga de socos e pontapés com os filhos mais velhos. O orgulho até que às vezes era bem disfarçado, mas eu sempre percebi a felicidade deles a cada conquista minha: o boletim, o vestibular, o diploma universitário, o primeiro emprego, a mudança para um jornal grande, o apartamento alugado recentemente para morar sozinha...


E foi com essa mistura de sentimentos que eu acompanhei o meu irmão menor até vê-lo chegar agora ao topo. Em 1980, quando eu tinha quatro anos, meus pais tiveram um outro filho. Ele tomou muito do tempo dedicado a mim. Isso me incomodou no início. Ele exigia cuidados diferentes dos que foram dados a mim e a meus irmãos mais velhos. O novo caçula era festeiro. Em um mês, meu pai - que sempre foi um cozinheiro de mão cheia - fazia um angu à baiana e enchia a casa de amigos (que eram chamados de companheiros). No outro mês, um panelão de canja de galinha levava mais dezenas e dezenas de pessoas que eu nunca tinha visto para dentro da minha sala. Sem entender muito bem o que estava acontecendo, eu até que gostava das festas. E tudo era motivo de festa. Também havia reuniões seriíssimas que levava umas 20 pessoas até minha casa. O assunto era o meu irmãozinho e eu ficava espiando pela porta entreaberta do quarto, onde meus pais presumiam que eu estava dormindo. Mas por que tanto se discutia esse moleque? Não basta ter apenas pai e mãe? Não, o meu irmão menor tinha uma infinidade de parentes. Nem eu havia sido tão paparicada... Ai que ciúme!


Fui crescendo, o ciúme foi acabando e no lugar dele cresceu o orgulho. Ficava feliz de ver cada conquista do meu irmãozinho em várias partes do país. Sim, meu irmão fazia sucesso e virou uma febre no Brasil todo. Em 1989, com apenas 9 aninhos, o moleque abusado resolveu que seria presidente. Meu pai, minha mãe, aqueles tios e tias que iam às festas lá em casa em 1980 agora já tinham se multiplicado por milhões. A famíila era grande e o moleque teria um bom apoio. Infelizmente, a primeira tentativa foi frustrada. Em 1994 e 1998, mais duas derrotas. Mas ele continuou crescendo, aparecendo, aprendendo e, sobretudo, merecendo.


Chegou 2002. Meus pais estavam um tanto decepcionados com o filho caçula que, aos 22 anos, havia se afastado um pouco do ideal que o cercava em 1980. O moleque estava em companhias suspeitas e seu Joaquim e dona Geyse se preocupavam muito com isso. Mas filho não se abandona e o amor falou mais alto: os dois voltaram a carregar no colo o garotão. Voltaram a sonhar com a possibilidade de um mundo melhor e se deram conta de que nunca estiveram tão perto disso. Eles estampavam no peito e no rosto o orgulho de ter ajudado a criar aquela criatura que levava milhões e milhões de brasileiros a sonhar com tempos melhores.


Domingo, 27 de outubro, eu estava na Praia de Icaraí comemorando com meu pai. Finalmente, o partido que ele ajudou a fundar em Niterói há 22 anos chegava ao topo. Minha mãe estava na Cinelândia, empunhando sua bandeira vermelha com a estrela branca. Meu irmão ficou em casa cuidando da sua pequena Ana Luísa, que nascera há apenas 11 dias. Minha irmã mais velha hoje mora em Fortaleza mas, certamente, de alguma maneira, estava comemorando a façanha do caçula da família. Durante a festa na praia, parou um daqueles companheiros da antiga, que freqüentava o angú à baiana e a canja de galinha, e gritou no ouvido do meu pai: "Joaquim, nós conseguimos!". O meu pai, com o olhar distante, respondeu apenas: "Em pensar que todas as fichas de filiação do partido cabiam em uma única caixa de sapato. E nós guardávamos aquela caixa como se fosse o nosso maior tesouro..."

domingo, novembro 03, 2002

Mais duas leituras imperdíveis:

Tutty Vasques - Brasileiro encontra virgindade perdida
Zuenir Ventura - Lula no coração do Brasil

Ambas, incrivelmente preciosas, que me sinto incapaz de "quotar" por aqui. Leiam lá, na íntegra e no original! :)

sábado, novembro 02, 2002

Lula recupera a paixão política
(João Moreira Salles)

27.Out.2002 | Desde o final de setembro venho filmando Lula para um documentário dirigido por Eduardo Coutinho e por mim. Acompanhei-o a doze estados e quase vinte cidades, além do Distrito Federal. Em todos os lugares, sem exceção, Lula é recebido por uma multidão de pessoas. Homens, mulheres, jovens, idosos, adolescentes, todos estão dispostos a sair de casa em nome de um entusiasmo raro nos dias de hoje: o da política.

O fenômeno Lula só pode ser bem compreendido por quem o vê na rua. Não me refiro apenas aos comícios, às caminhadas ou aos desfiles em carro aberto, mas também às saídas dos hotéis onde se hospeda, aos saguões dos aeroportos por onde passa e aos restaurantes onde pára para comer. Ou seja: tanto nos eventos oficiais da campanha presidencial como nos encontros fortuitos de Lula com seus eleitores, a mesma intensidade está lá. Lula não se deixa decifrar pelos jornais ou pela televisão. Pelo menos, não plenamente. É preciso estar perto dele e testemunhar. Existem certos fenômenos assim. Os que me ocorrem de imediato nada têm a ver com política. O futebol e o carnaval, por exemplo. Quem já assistiu a uma partida no Maracanã ou presenciou uma escola de samba na Marquês de Sapucaí, mais tarde, ao ver jogo e desfile reproduzidos na televisão, sente que houve um amesquinhamento da experiência. A mesma coisa vale para os grandes acidentes naturais (e, entre aqueles que têm fé, para as cerimônias religiosas). Os fenômenos dessa categoria têm em comum o fato de exigir a experiência imediata, sem mediações. Nesses casos, a distância não funciona.

Porém, ao contrário dos exemplos citados, a arte política de Lula está muito além da idéia de espetáculo, sobretudo se dermos a essa palavra seu significado mais prosaico, de fruição dos sentidos. As pessoas que saem de casa para assistir a um comício de Lula não estão apenas indo a um programa divertido. Talvez a presença de Zezé di Camargo e Luciano em vários comícios do primeiro turno possa ter engordado a conta do número de participantes desses eventos, mas no segundo turno Lula subiu nos palanques sozinho, às vezes tarde da noite. Em Aracaju, depois de ter visitado três outros estados no mesmo dia, só conseguiu chegar ao comício às onze da noite. Na última quarta-feira, em Florianópolis, depois de passar pelas cinco regiões brasileiras num mesmo dia, Lula começou a falar perto da meia-noite. E diante dele não houve um palmo de asfalto desocupado. As praças estavam sempre lotadas.

Frente a Lula estavam milhares de pessoas que acreditavam ? nele, no partido, na possibilidade de mudar o Brasil, na chance de melhorar a própria vida. Não interessa se tinham ou não razão em acreditar. Os próximos quatro anos se encarregarão de responder a essa dúvida. Incontestável é o fato de que Lula exumou das cinzas as velhas idéias do sonho e da utopia, trazendo-as de volta à esfera da ação política. Penso que parte do seu sucesso deve ser creditada a isso. Ambas eram idéias mortas para muitos dos políticos mais honrados das últimas décadas, e vivas demais para alguns dos piores.

(...)

Imagino que quando se oferece às pessoas a possibilidade de se sentirem parte de um projeto maior, de um sonho repartido, elas geralmente acorrem. Essa é a grande virtude de Lula. Ele recupera o sentido de comunhão na política. Quando fala, quem o ouve fica com a impressão de que a possibilidade de fazer história pertence um pouco a todos. Lula provavelmente jamais deu crédito à idéia de que as utopias estavam extintas. Bastava-lhe olhar para a própria biografia. Neste sentido ? o da história de sua vida ? ninguém poderia estar mais preparado para acreditar na noção de que é possível reinventar a história. Quando milhares de pessoas em Osasco (25/9), Porto Alegre (30/9 e 18/10), Aracaju (15/10), João Pessoa (15/10), Recife (15/10), Belém (23/10), Macapá (23/10) ou Florianópolis (30/9 e 23/10) saem de casa para ouvi-lo, saem em parte por isto: porque diante delas está não apenas um político (talvez o maior político de massas desde Getúlio Vargas, segundo Ricardo Kotscho), mas uma metáfora. Lula é o Brasil que pode ser outro.


Não deixem de ler esse artigo na íntegra. É definitivamente imperdível!


sexta-feira, novembro 01, 2002

Bloco de sujos elege seu folião mais bonito

Há muitas características inéditas na vitória de Lula para o cargo de presidente da República. (...) Mas confesso que de todo o ineditismo que cercou esta eleição o que mais me surpreendeu foi a festa que se seguiu à divulgação do resultado oficial.

A maioria escolheu Collor (toc, toc, toc) e não comemorou. A maioria escolheu Fernando Henrique duas vezes e não comemorou. A maioria esperou a eleição de Lula para comemorar. Foi um carnaval fora de época em que a música preferida dos foliões era o Hino Nacional. Não dá para se comparar com movimentos como o das Diretas Já ou o do Fora Collor (toc toc toc) em que o povo foi em massa para as ruas. Era diferente. No domingo à noite, ninguém tinha nenhuma reivindicação a fazer. Ninguém queria provar que o povo unido jamais será vencido. A intenção era só festejar. E isso nunca aconteceu antes. (...) Por que?

Lula é, sem dúvida, o presidente do Brasil mais parecido com a massa que elege presidentes no Brasil. Nunca a maioria se identificou tanto com o eleito. Lula não fala bem português, erra concordâncias — verbais e nominais — tem problemas de dicção, parece que está sempre pouco à vontade dentro do terno e gravata. Enfim, é um presidente do Brasil com cara de brasileiro. (...)

A festa de domingo à noite foi a festa da identificação. Se Narciso acha feio o que não é espelho, o povo brasileiro, que está sempre enamorado de si mesmo, foi para as ruas celebrar a vitória do mais bonito dos brasileiros. O bloco dos sujos, desta vez, escolheu um de seus pares.

Artur Xexéo, em "O Globo".


quinta-feira, outubro 31, 2002

A floresta e as árvores de Lula
(Emir Sader)


Que governo é esse que vai se instalar no Brasil? Quem ganhou as eleições? Para onde irá o Brasil? As perguntas não deixam de se multiplicar em nossas cabeças e na mídia nacional e internacional, o que muitas vezes acaba induzindo o que nós podemos pensar e esperar do governo Lula. O importante nesta hora é não perder de vista a floresta, sem deixar de ter os olhos bem postos nas árvores.

A floresta: a dimensão histórica da vitória de Lula e da esquerda. Não por acaso, no País mais injusto do mundo, a esquerda, tendo como cabeça um líder popular de origem operária ? que dirigiu as principais greves que quebraram a espinha dorsal da ditadura militar ?, consegue levá-lo à Presidência da República.

Num País em que as elites se apropriaram do poder quase como propriedade sua, em que o patrimonialismo foi incorporado como traço corriqueiro na relação entre classes dominantes e Estado, se trata de uma grande ruptura, pelo menos de uma situação radicalmente nova. Isso não apenas pela eleição de Lula ? outros líderes de origem popular foram eleitos para a Presidência da República em outros países, mas não no bojo de um partido de esquerda, com bases sociais nas classes dominadas ?, mas pela vitória nacional, pela primeira vez entre nós, da própria esquerda.

Essa dimensão não pode ser subestimada, pelo que ela representa de desestruturação na reprodução dos blocos sociais e políticos que sucessivamente reproduziram o capitalismo brasileiro como uma fábrica de injustiças e de desigualdades. Recorde-se mais recentemente como o BNDES jogou um papel essencial no revigoramento da acumulação privada de capital, nos processos de privatização, provavelmente o caso mais escandaloso de subsídios públicos ao setor empresarial privado que tenha existido no País. Uma simples ruptura no papel do Estado, através do BNDES, representará uma redefinição significativa da sua natureza de classe, do significado social da ação do Estado na sua relação com a acumulação privada e com os direitos sociais da massa dos trabalhadores.

Além disso, a importante renovação do Congresso complementa um quadro que pode significar uma renovação do interesse e do prestígio da política e das lutas coletivas ? com elas, o "refortalecimento" do papel dos partidos políticos, das ideológicas, da produção cultura etc. ? sem o que não será possível construir no Brasil uma democracia, que supõe uma ampla participação popular.

Mas a floresta, embora seja muito mais que uma soma de árvores, finalmente é composta por elas. Os grandes passos começam por pequenos passos e o caminho deixado pelos 9 anos de FHC está cheio de bombas de tempo, de minas prestes a explodir. A "vingança" dos perdedores pretende vir via "mercado", com a acentuação da volatilidade dos capitais especulativos, tornados essenciais para manter a precária estabilidade monetária. Os mercados pretendem assumir com força seu poder de veto sobre a economia.

Felizmente no seu primeiro pronunciamento Lula não se preocupou em "tranqüilizar os mercados", apontando para a nomeação do presidente do Banco Central antes do conjunto do Ministério. Como ele mesmo havia dito, a nomeação de ministros econômicos antes dos outros significaria o privilégio desses ministérios, que, como sabemos, representam um elo essencial da relação do governo com os grandes capitais privados. Ao contrário, sua primeira medida de governo será a criação da Secretaria de Combate à Fome. O programa de Lula privilegiou o social, materializando assim a reversão de prioridades, e isto tem que estar presente desde o primeiro momento. Como ele mesmo disse, não valeria a pena ganhar se não fosse para mudar a política de Malan. E isto seria feito desde o primeiro dia.

Estas medidas, os primeiros pronunciamentos, a mudança do discurso economicista viciado a que nos tentaram acostumar desde o governo e desde a grande mídia, precisam expressar ao povo que embora não se mudará a terrível herança recebida do governo FHC de forma radical logo, mudou o governo, mudaram as mãos em que está o Estado brasileiro, mudou a linguagem e mudaram aqueles para quem o governo fala e governa o País. Governar para os 175 milhões representa isso: falar para todos, convocar a que todos se mobilizem para ajudar a resolver coletivamente os problemas do País, romper aquele círculo estreito de quem cerca o governo e pretende afogar desde o começo o governo Lula.

Se trata de destacar a floresta, para dar a dimensão real das árvores, mas ao mesmo tempo, de começar a plantar todos os dias novas árvores, que comporão uma floresta em que caibam todas as árvores.

"...Não se deve subestimar, com prepotência, a virtude humana de rever conceitos, aprender com os próprios erros e evoluir no campo das idéias e das propostas. Assim - ao contrário do que alguns propagam e do que muitos temem -, não há qualquer contradição no discuros da campanha eleitoral do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva. O fato de ter, como Lincoln, origem humilde e currículo de operário não lhe tira a oportunidade de vir a ser um verdadeiro estadista. Está em suas mãos o poder e a autoridade conferidos pelas urnas de montar equipe de governo de altíssimo nível e realizar programa compatível com suas promessas de campanha, ou seja, voltado ao crescimento sustentado da economia, à geração de empregos, ao estímulo às atividades produtivas e à inclusão social, sem perder de vista a responsabilidade fiscal e o compromisso de honrar o serviço da dívida pública. Somente a sociedade, daqui a quatro anos, por meio do voto soberano, poderá julgar se o presidente eleito terá cumprido ou não o programa que "vendeu" na campanha eleitoral de 2002. Antes disso, não é lícito e sequer inteligente disseminar o pânico e prejulgamentos sobre o novo governo..."
Eduardo Rocha Azevedo é corretor, ex-presidente da Bovespa e fundador da BM&F - Carta Capital.
Enviado por Sueli Coelho

terça-feira, outubro 29, 2002

"Ganharemos" - Betinho, 13 anos depois

"Ninguém vota por nós. Ganharemos", escreveu o sociólogo Herbert de Souza nas páginas do Jornal do Brasil em 15 de novembro de 1989. Era o primeiro turno da eleição para presidente e ele se indignava com o fato de, depois de tantos anos lutando para reconquistar a democracia, o Brasil visse o direito ao voto ser usurpado por institutos de pesquisa e meios de comunicação.

"Ninguém vota por nós. Ganharemos", afirmava. "Nós", no caso, éramos todos que, "com nossos acertos e erros", ressaltava Betinho, lutamos pela democracia. O resultado, porém, todos viram.

Demorou, Betinho. Mas ganhamos.
Nossa Primeira Revolução
(texto de Márvio dos Anjos, RJ)

"A vitória de Luís Inácio Lula da Silva é desde já histórica. Votação recorde na Rebública Federativa do Brasil, o triunfo do torneiro-mecânico é talvez o traço de revolução que sempre faltou à História nacional, desde quando a aprendemos no colégio. Ao longo dos 502 anos do País, não se conheceu nenhum grande levante vitorioso de cunho popular. Nossas datas mais representativas são as comemorações de dois golpes de Estado: o de Dom Pedro I, declarando a Independência, e o dos militares que, na figura do generalíssimo Deodoro da Fonseca, proclamaram a República. Declaração. Proclamação. O povo sempre foi platéia para os atos das elites que, a título de "representação da vontade da maioria", se mantinham no poder por meio desses gestos. Dos heróis nacionais, a única figura a quem rendemos homenagem (mais por pena que por memória honrosa, por sinal) é o mártir Tiradentes. A bem da verdade, o último herói que uniu a Nação em torno de um ideal a ser recordado se chama Pelé.

Porém, a eleição deste natural de Garanhuns (PE), arquitetada por um partido de trabalhadores e executada com o auxílio de 52 milhões de brasileiros, tem o mesmo perfil do significado da vitória de um Lech Walesa ou de um Nelson Mandela. Com Lula no poder, o povo brasileiro se autoriza a ser vencedor. Perde a vergonha de si mesmo, do português canhestro, da origem humilde, perde o medo de encarar a sua própria pobreza; hoje, o Brasil tem um tipo brasileiro majoritário na figura de líder máximo. Vestindo a faixa presidencial, estará a fome, o desemprego, a seca, o abandono dos hospitais públicos, a luta pela democracia e, com todas estas mazelas, uma responsabilidade enorme.

Sobre as costas dos petistas, repousam milhões de esperanças. Para um partido que sempre alimentou uma chama messiânica ao seu redor, os próximos quatro anos podem marcar a consagração de um novo modelo de administração nacional, como também podem esmaecer a aura de pureza ideológica que o PT ainda tem para alguns eleitores, à medida que o cenário político-econômico reduza alguns dos supostos super-homens a meros políticos, submetidos às regras de um jogo cruel, ingrato e, em alguns dos casos, corrompedor. A ingênua crença na infalibilidade da esquerda está com os dias contados e, ao fim de quatro anos, o Brasil terá avançado mais em sua idade adulta no processo democrático. Essa maturidade já é perceptível quando as urnas derrotam o conceito pseudo-progressista de que as crises só são superadas quando há continuidade no poder. Em qualquer democracia de respeito, eleições são vistas como uma opção entre modos de administração, em vez de um risco simplista de abandonar o progresso. No último domingo, o Brasil mostrou que preferirá ser governado mais para dentro que para fora nos próximos quatro anos.

Só o futuro permitirá que Lula e seus companheiros provem que este 27 de outubro deveria tornar-se uma data cívica, ou mesmo um feriado nacional, como marco de uma nova era na República do Brasil. A revolução popular que nos faltava já foi executada com sucesso e comemorada efusivamente; o que nos falta saber é se ela trouxe mesmo um herói."

segunda-feira, outubro 28, 2002

Clap!

FHC afirma que terá "momento de grande emoção" ao transferir faixa a Lula

Fernando Henrique Cardoso, em entrevista coletiva que concedeu nesta segunda-feira para comentar as eleições, elogiou o processo eleitoral, as escolhas da população e, especificamente, a vitória de Lula.

"O presidente eleito é uma pessoa que conheço há 30 anos, que começou a vida como líder metalúrgico. Isso nos orgulha porque mostra que neste país há mobilidade social e que é vivemos em uma democracia plena", disse FHC. "Fico feliz de dirigir o Brasil neste momento esperançoso para todos nós".

Perguntado sobre o sentimento que sentiria no momento de transferir a faixa presidencial para Lula, FHC afirmou que o faria com emoção. "O meu candidato, José Serra, se portou com muita dignidade no processo eleitoral. Mas há um significado especial em passar a faixa para um homem que veio dos sindicatos e que eu conheci nos anos 70. Isso me dá emoção. Espero com ansiedade o momento em que o mundo inteiro verá um intelectual transmitir a faixa para um operário democraticamente eleito".

FHC elogiou também o que chamou de "maturidade do eleitorado". O presidente fez referência aos sete governadores eleitos pelo PSDB, aos 5 eleitos pelo PMDB e aos quatro eleitos por PFL e também pelo PSB.

"O povo demonstrou que escolhe livremente, não vota de uma maneira uniforme em todo o país. Não é sinal de falta de consistência, mas de liberdade. O eleitor sabe escolher, balancear".
Íntegra do primeiro discurso do Lula após sua eleição: "Compromisso com a Mudança".
Texto de Elis Marchioni, jornalista de São Paulo.

"Se errar, serei o primeiro a ir para a televisão desculpar-me com meu povo!"
(Luis Inácio Lula da Silva, em comício na Avenida Paulista)

"São frases como essas que demonstram a diferença de ação entre Fernando Henrique e os tucanos e Lula e o PT. Não que o FHC seja um fiasco, mas ele e seu partido não reconhecem seus próprios erros. Sobra uma arrogância que já estamos cansados de presenciar. Lula, o articulador, é diferente. Sempre foi. De operário a presidente, ele ainda tem de provar que é capaz. Não é um intelectual que galgou etapas pré-concebidas. É um nordestino vindo de pau-de-arara para Sampa tentar a vida. Galgou etapas de forma diferenciada: teve de articular muito para conquistar cada espaço em sua vida. Por isso concluo que será bem sucedido nesta nova empreitada.

Agora eu não consigo dormir. Sofro de ansiedade e já tomei meus medicamentos. Lula é presidente e eu já chorei e vibrei muito com a melhor notícia política desde o meu nascimento. Houve uma grande mobilização na Paulista, coisa só vista antes em 1983 - na campanha das Diretas Já. Lembro-me que torci muito para o Tancredo contra Maluf e Andreazza. Mas tinha apenas 11 anos e ainda não era uma eleição direta. Aos 16, lá estava eu fazendo campanha pro Lula, já filiada ao PCdoB. E aliançado ao meu partido, Lula disputou uma, duas, três, quarto eleições. Agora, sem medo de ser feliz, a gente conseguiu!

Parabéns para todos nós que soubemos esperar o momento certo para iniciar uma revolução pacífica. Uma revolução não no modo de tomar o poder, mas no intuito de renovação de idéias: onde a ética e a articulação política sejam vitoriosas, num governo onde reine somente a democracia. Que seja o melhor governo da história de nosso país."
Parece que ainda não "caiu a ficha" pra mim, ainda estou sem muitas palavras... ;")

O nosso blog ainda não acabou. Pode continuar mandando sua declaração pessoal, foto de sua comemoração, artigo ou matéria interessante que achou na imprensa nacional e internacional.

E não podemos parar nosso trabalho. Não vamos admitir má vontade política, assim como vamos criticar os erros de quem ajudamos a eleger. E a partir de agora, deixe um pouco de lado as diferenças ideológicas: esquerda e direita, socialismo e capitalismo, petista ou pefelista. O objetivo de todos tem que ser um só: fazer de cada brasileiro um cidadão mais digno.
"Um presidente, muita esperança"
(Antonio Candido)


A vitória de Lula, nas condições em que ocorreu, parece uma investidura histórica conferida pelo povo brasileiro. É como se os eleitores tivessem sentido que a mudança a que muitos aspiram só pudesse ser tentada por alguém desligado dos velhos hábitos da nossa política. Por isso, ricos e pobres, radicais e moderados, cultos e incultos lhe abriram um crédito largo de confiança, esperando com certeza que possa contribuir para as transformações de que o país precisa.

Nisso tudo há, antes de mais nada, uma espécie de simbolismo. Cansado das injustiças e dos erros cometidos pelas elites, o povo brasileiro resolveu confiar o seu destino a alguém da classe operária, como se quisesse reconhecer o direito que ela tem de participar decisivamente no governo da nação, com ânimo de mudança. Em todo o mundo, quantos trabalhadores manuais chegaram à chefia do Estado? Bem poucos. Pela luta armada e pela guerra, Tito na Iugoslávia; pelo voto, Fritz Ebert na República de Weimar e Lech Walesa na Polônia. No Brasil, a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva simboliza a incorporação do "quarto estado" às esferas que decidem o rumo do país.

Note-se que ele não é um trabalhador que, pelo esforço, conseguiu sair da sua classe e incorporar-se às elites dominantes, como Lincoln. A singularidade no seu caso é que continua essencialmente identificado aos interesses da sua classe, mas decidido a atender às necessidades de todo o povo brasileiro.

(...) Leia o restante do artigo AQUI

I

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o Sol da liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da pátria nesse instante.


Se o penhor desta igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!

Ó pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece.

Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza.


Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó pátria amada!

Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!


II

Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao Sol do Novo Mundo!

Do que a terra mais garrida,
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
"Nossos bosques tem mais vida,"
"Nossa vida" no teu seio "mais amores".


Ó pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!

Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro dessa flâmula
- Paz no futuro e glória no passado.

Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.


Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó pátria amada!

Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!